sexta-feira, 30 de novembro de 2012

ENTREVISTA COM ROBERTO FARIAS, DIRETOR DO FILME "PRA FRENTE, BRASIL"

A entrevista abaixo me foi gentilmente concedida pelo cineasta brasileiro Roberto Farias via e-mail, na qual comenta alguns detalhes da realização de seu importante filme sobre a tortura durante o período militar, focalizando também na obra a questão do futebol como paixão nacional e instrumento de manipulação ideológica.  Responde ainda a alguns questionamentos sobre a temática da tentativa de aproximação e integração cultural dos países do continente. Boa leitura!
F.Prieto

Roberto Farias (Pra Frente, Brasil)
  1. Quais as principais motivações e objetivos que o conduziram à realização do filme “Pra Frente, Brasil”?
- Passei 4 anos como presidente da Embrafilme, empresa de economia mista do Estado. Apesar de nomeado pelo general Geisel, presidente na época, não deixei de sentir a pressão e vigilância de órgãos como o SNI. Sou contra qualquer tipo de ditadura e aceitei o cargo por acreditar que era importante na luta pelo cinema brasileiro. Mas os mil olhos, as mil perguntas, a antipatia de uma parte do governo com respeito a minha missão me deixaram tenso a maior parte do tempo, apesar de atender e ser prestigiado pela outra parte, que, a meu ver, era aquela que um dia restabeleceria a liberdade de expressão. Fora isso, a consciência de que o governo militar cometia excessos que de uma maneira ou outra as pessoas ficavam sabendo pelas entrelinhas dos jornais, pelo boca a boca que corria. Foi como se ficasse quatro anos com a respiração presa e na primeira oportunidade que tive de renovar meu oxigênio não tive dúvidas respirei fundo e voltei a sentir que o Brasil estava mais perto da liberdade.

    2. Houve, em sua opinião, coincidência entre os objetivos propostos e os resultados finais alcançados com o filme?
- Claro. No entanto, não imaginei causar tamanha encrenca. Acreditava que estávamos num processo de abertura e que meu filme sairia mais facilmente da Censura, apesar de esperar alguma resistência. Ele ficou interditado por quase 1 ano e quando pôde ser exibido ainda causou um grande impacto.

    3. Quais os principais fatores que você poderia citar como determinantes para a escolha do tema e a forma de elaborá-lo?
- Parte da resposta está na de cima. A forma de elaborá-lo foi o thriller. Gosto de um cinema dinâmico, fácil, simples, que o público possa acompanhar sem problemas. Tentei ser sutil, falando de organizações para-militares para ver se escapava de uma censura mais rígida. Tive a preocupação de mostrar que o governo militar não era monolítico, que havia um equilíbrio entre os que queriam que a ditadura perdurasse por muito mais tempo e os que já não suportavam o sufoco a que submetiam a nação.

    4. Houve intercâmbio com outros artistas e intelectuais sul-americanos, ou influência de sua obra, na realização do referido filme?
- Nenhum intercâmbio, nenhuma influência. O filme foi uma decisão minha, como uma explosão de indignação.
  
 5. Você acredita que o cinema tenha um papel relevante na construção de uma identidade continental sul-americana?
 - Acho que esperamos do cinema muito mais do que ele pode dar. É importante fazermos filmes, importante que sejam vistos pelos nossos vizinhos da mesma forma que é importante ver os filmes deles. Mas a tarefa de construir uma identidade continental sul-americana ultrapassa de muito o que o cinema pode fazer. É necessário um conjunto de ações, na área diplomática, na comercial e na da cultura como um todo.




  
    6. Em caso positivo, de que modo se dá essa contribuição?
 - Já respondi.

    7. Acredita que o cinema, mesmo ficcional, sirva para preencher “lacunas” existentes no imaginário popular com relação a determinados períodos e fatos históricos? (Se possível, comente).  
 - Isso sem dúvida. Mas acho que teria de ser algo permanente, com a participação das universidades, da televisão, além do cinema. As pessoas esquecem rápido. As gerações se sucedem e num instante já ninguém se lembra de fatos ou personagens bem recentes. Se você fizer uma pesquisa, hoje, poucos sabem quem foi Getúlio Vargas, ou mesmo Juscelino Kubitschek.

    8. Acredita na força da imagem e da cultura em geral como instrumentos possíveis e eficazes para auxiliar a integração entre os povos e para a realização de mudanças sociais e políticas? (Se possível, comente).
 - Mudanças políticas só acontecem com o tempo. Com a conscientização, a educação, o amadurecimento. A imagem e a cultura são parte dessa evolução.

    9. Como vê a incidência de manifestações artísticas espontâneas, nas últimas décadas, tendentes a ampliar o intercâmbio simbólico entre os países do continente sul-americano? Acha que esse intercâmbio espontâneo tende a aumentar?
 - Vivemos durante muitos anos de costas uns para os outros na América do Sul. Todo esforço é bem-vindo. Só não acredito nos líderes carismáticos, que pretendem mobilizar as massas aprofundando divergências. Como eu disse, acho que a diplomacia, o comércio, a cultura, a literatura acabarão por conduzir-nos a este ideal. Para mim, este é o caminho, ainda que dure séculos.

    10. O Neo-realismo italiano e a Nouvelle Vague francesa, com sua linguagem inovadora e como formas de retratar o mundo de maneira mais direta tiveram influência em sua obra?
 - Sem dúvida. Não há cineasta da minha idade que não tenha sofrido influência desses movimentos.

     11. Você tem uma idéia aproximada de quantas pessoas já assistiram ao seu filme?
 - Quando ele foi lançado, em 82/83, fez 1.250.000 espectadores. Mas já passou várias vezes na televisão aberta e por assinatura. Na aberta chegou a mais de 30 pontos de audiência. Cada ponto equivale a pelo menos 1.000.000 de pessoas.

Junho de 2008
             
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