quinta-feira, 28 de junho de 2012

Golpe contra os paraguaios


Uma vez mais, as oligarquias dão um golpe na América do Sul. Uma vez mais, a vontade popular e a democracia são atropeladas pela vontade de uma minoria elitizada. Falo do Paraguai de Lugo, onde acaba de ocorrer um golpe nefasto, com apoio do Congresso e co-validado pelo Judiciário. Durante uma visita ao Brasil, na qual representava o país na conferência ecológica Rio+20, Lugo foi destituído por meio de um artifício jurídico, um julgamento sumário com escasso direito a defesa. Esperar que o mandatário eleito viaje para retirar-lhe o mandato não é novidade no continente. O que surpreende é a ‘cara-de-pau’ de dizerem que tudo foi feito dentro da maior institucionalidade e que não houve golpe: por que esperar a viagem do presidente ao exterior para julgá-lo? Como esperar que apresentasse defesa de maneira apropriada em duas horas (tempo que foi dado a seus advogados para se manifestarem), apenas? Como imputar-lhe um crime por algo que foi cometido por policiais, em cumprimento a uma ordem judicial? Se houve excesso ou desvio, certamente não foi o presidente o culpado.

O que se sabe de antemão: tudo já estava preparado desde 2009. Comunicados da embaixada americana no país, vazados pelo wikileaks, dão conta de que já se planejava um golpe de estado nesses exatos moldes desde aquele ano. Houve tentativas anteriores de realizá-lo, frustradas por falta eventual de apoio. O vice-presidente e seus asseclas já tramavam derrubar o presidente desde então, ou talvez desde antes, até. A coligação, necessária para vencer as eleições não se reproduzia dentro do Congresso, que rejeitava sistematicamente todos os projetos de Lugo. Acuado, Lugo realizava o pouco que podia, sob críticas tanto da direita quanto da esquerda. Combatido de lado a lado, foi fácil derrubá-lo com base na comoção provocada por um incidente trágico, a morte de sem-terras que tentavam ocupar uma fazenda. Suspeita-se que capangas do proprietário tenham iniciado o tiroteio que motivou a reação desproporcional das forças públicas. Mas como culpar um presidente por isso?

As forças por detrás do golpe: o vice-presidente Federico Franco e seus trinta e nove aliados no Congresso, os membros dos demais poderes que reconheceram a validade de um julgamento político sumário sem direito ao devido processo legal e ampla defesa, os latifundiários que temiam ações de ocupação, os grandes capitalistas que desejam que o Paraguai dê uma guinada decisiva em direção à direita e ao centro do sistema econômico mundial, além de grandes empresas do agronegócio, tais como Monsanto, Bunge e Cargill. Junto com estes, a mídia paraguaia, bem como a dos países vizinhos, apoiando o golpe e aceitando rapidamente a ascensão do 'governo de fato' ilegítimo ...

Agora, a boa notícia: Paraguai resiste! O povo paraguaio, incentivado e apoiado por seus vizinhos continentais e por movimentos sociais no mundo todo, resiste e quer recolocar Lugo em seu devido lugar, ou seja, na presidência do país. “Basta de golpes”, dizem eles! “Fuera, presidente trucho!” (falso)! “Parlachorros (algo como 'parlamentares ladrões'): no nos representan!” Cabe ao impostor Federico Franco, enquanto é tempo e caso tenha algum bom-senso, escutar o povo paraguaio que clama nas ruas e já começa a reagir decisivamente ao golpe ...

http://paraguayresiste.com/ (aqui se podem obter informações diretas sobre os atos de resistência).

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Socialismo pela via partidária?

O ideal socialista de possibilitar igualdade de acesso aos bens sociais e promover maior igualdade de oportunidades, ao socializar a posse e controle dos bens de produção, mantidos sob tutela do Estado, não está totalmente morto. Em muitos governos considerados 'reformistas', ao menos a primeira parte do  enunciado acima é praticada, em maior ou menor grau, como forma de reduzir tensões sociais e até mesmo como estratégia de manutenção de poder por parte de grupos políticos, o que costuma ser criticado como uma forma de moeda de troca eleitoral. Tais ações, no entanto, costumam ser bem recebidas pelos beneficiários, total ou parcialmente excluídos socialmente, uma vez que frequentemente lhes trazem oportunidades de mudanças e melhoras significativas.

O que se pergunta é: seria realmente possível transformar radicalmente a macro-realidade econômica e social pela via partidária, mantidas as regras políticas vigentes? No Brasil, penso que isso é quimera. Para transformar drasticamente a realidade social, política e econômica, seria necessário que os que hoje detêm os bens e recursos fossem forçados ou convencidos de algum modo a socializá-los, o que não se daria sem enfrentamentos ou guerras. Seria necessário ainda que os detentores do poder político aceitassem abrir mão do mesmo em favor de uma nova forma de governo. Tampouco creio que a população, conscientemente, aderisse a uma revolução de resultados incertos para ter acesso a esses bens e poderes, aceitando uma troca radical do atual sistema - com o qual já vem se habituando há mais de um século - por outro para ela ainda desconhecido e incerto.



Qual seria, então, o objetivo de um partido socialista que não o fosse só no nome e que pretendesse de fato promover e implementar tais transformações, tendo em conta que pela via institucional seria não apenas improvável, mas praticamente impossível realizá-lo? Sabemos que sem o povo, não há revolução. Que objetivos, então, propõe-se a cumprir um partido que se diga socialista? Se se colocam como reais revolucionários, "o dever de todo revolucionário é fazer a revolução", já dizia Che Guevara, frase reverberada por ninguém menos que Marighella, mas, como bem se sabe, para tal haveria que mobilizar amplas camadas da população e saber como enfrentar as resistências prováveis. Caso não seja essa a função de um partido socialista, poder-se-ia acusá-lo do mesmo que muitos socialistas acusam os partidos ditos 'reformistas', que estariam no poder por amor ao próprio poder, ou para promover acomodação e não mudança concreta.

Resta saber se um partido socialista, investido no governo de um país pela via institucional, seria capaz de propor esse tipo de mudança brusca e se, ao fazê-lo, teria o necessário apoio da população que o elegeu para empreender as mudanças prometidas e pretendidas, sem, no entanto, jogar o país em uma guerra interna e sem ser derrubado de seu pedestal por forças internas e externas. Ou, no caso de não ser possível fazer isso sem uma guerra fratricida, com alto custo para a nação, saber se tal seria desejável e útil, já que a hipótese de realizar tais mudanças sem enfrentar oposição ferrenha, apenas pela via do convencimento, é fantasiosa. Quantos de nós estaríamos dispostos a matar e/ou morrer numa verdadeira ‘intifada’, cientes de que nossos esforços poderiam vir a ser anulados ‘a posteriori’ por uma intervenção externa contrária? Quantos de nós abraçaríamos uma causa radical, mesmo sem acreditar totalmente em sua viabilidade e eficácia?

Gradualismo, ou ruptura: qual o melhor caminho? Qual é o real papel de um partido socialista: promover reformas graduais ('reformismo'?) ou rupturas radicais ('revolução', 'revolta')? O que é mais viável? É possível mudanças verdadeiras sem rupturas bruscas?  Ou isso não importa? ...

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Primavera ... ou Dominó Árabe?

Estamos assistindo de nossas poltronas, cadeiras e sofás, há quase um ano, a mídia internacional hostilizar e acusar o presidente da Síria, país que parece ser a bola da vez nas revoluções instigadas via mídia e redes sociais, com uso das novas tecnologias e internet.

No início, tínhamos 'protestos pacíficos' (a exemplo de como começou em outros países), os quais foram sendo amplificados via mídia até o ponto de se tornarem o foco de uma rebelião. Na sequência, como mágica, surgem grupos armados, milícias e um exército insurgente que tem armas modernas e enfrenta o poder constituído quase de igual para igual. Além de armas, todo um aparato de apoio e inteligência militar.

Novo flash: com o surgimento forçado de conflitos armados, já que os insurgentes (antes manifestantes pacíficos) começam a impor por armas a tomada de cidades, vemos a mídia internacional exigir algum tipo de intervenção externa no país ou sanções contra o presidente. A ONU entra em jogo e tenta criar um plano de paz - totalmente inútil, já que os insurgentes, armados pelo ocidente via países amigos na região (Turquia, Arábia Saudita, etc.) não estão interessados na paz, como não estavam desde o princípio e, juntos com os militantes externos, trabalham para boicotar o plano.

Para justificar uma futura invasão por parte das tropas imperiais (OTAN, ou NATO em Inglês), a mídia internacional novamente sobe o tom, acusando a ONU de inércia e a Rússia de vetar, no Conselho de Segurança, sanções ao país. Mostrando as vítimas de um só lado do conflito e creditando todas as mortes, mesmo que em confrontos, ao 'governo tirânico de Assad', criam o ambiente para uma percepção mundial negativa do atual governo sírio, o que justificaria qualquer tentativa de destroná-lo. É a mídia no papel de construção da imagem do outro desconhecido, moldada como uma máscara para fazê-lo parecer bom ou malvado.

Assad convoca eleições parlamentares, obtendo esmagadora maioria de votos para os membros do seu partido: analistas internacionais denunciam a eleição e dizem que 'o momento não era apropriado'. Se o povo sírio, em sua totalidade, detesta seu presidente, por que tanta gente ainda vota nos representantes do Baat, partido pelo qual foi eleito, justamente em uma hora de crise nacional?

Novas hostilidades, um massacre de civis em uma área fortemente controlada pelos insurgentes - 'a culpa é, presumivelmente, de milícias pró-Assad'. Como? Se insurgentes controlam aquela área com unhas e dentes, como milícias do outro lado entrariam lá e matariam só civis (mais de cem), abandonando a área a seguir - sem que ao menos houvesse combate? Se atacaram uma área controlada pelo FSA (Exército de Libertação Síria), porque a abandonariam logo a seguir? Uma escaramuça? Sem que ninguém visse ou sem que os insurgentes pudessem fazer nada contra, mesmo dominando a cidade inteira e a região?

Mesmo sem ter determinado a exata autoria do trágico evento, culpam os 'shabiha', que seria essa tal milícia pró-Assad.  Sabemos que na Síria, além do conflito político incentivado pelo ocidente, temos agora a re-ignição do secular conflito entre seitas islâmicas -shiitas/alawitas (a minoria, com cerca de 10 % a 15% da população) e sunitas (cerca de 70% do total). Os que morreram pertenciam justamente à maioria. Novo massacre, agora contra trabalhadores públicos - a mídia agora não culpa ninguém, diz que um lado responsabiliza o outro. Agora não há condenação internacional ...

Tudo nesse conflito é nebuloso, menos nossa certeza de que é muito manipulado e induzido pelos interesses ocidentais. Já se fala abertamente em atacar o Irã ou o Iêmen logo a seguir, dando sequência ao dominó de  regimes árabes derrubados com ajuda externa, para atender em boa parte a interesses externos. Ao que tudo indica, o Irã, por sua importância estratégica e riqueza em petróleo é a verdadeira meta final de todo esse processo. A percepção ocidental sobre Assad, durante as décadas de governo de seu pai, Hafez-Al-Assad, era de um  aliado ocidental moderado: bastou seu filho comerciar com a Rússia e China para virar inimigo irreconciliável do ocidente e de seu próprio povo. A Guerra Fria acabou mesmo?

Curiosamente, outros países considerados aliados, que têm práticas e modelos políticos questionáveis, além de manterem  diferenças de tratamento bem marcadas quanto ao sexo - sem falar da discriminação das minorias - tais como Arábia Saudita e Emirados Árabes, não são molestados pelo ocidente. Pelo contrário, tudo é feito para blindá-los e impedi-los de fazer parte do dominó, quero dizer, da primavera árabe. Nesses países, nos quais o poder político também é autocrático (monarquias) e nos quais os costumes também são tradicionalistas e onde a ligação entre Estado e Religião é absoluta, não se incentiva a criação de protestos libertários e muito menos de 'exércitos insurgentes': aqui não haverá revolução!

FUERZA, AMIGOS!

NUESTRAS ORACIONES SE VUELVEN A USTEDES