quinta-feira, 14 de junho de 2012

Socialismo pela via partidária?

O ideal socialista de possibilitar igualdade de acesso aos bens sociais e promover maior igualdade de oportunidades, ao socializar a posse e controle dos bens de produção, mantidos sob tutela do Estado, não está totalmente morto. Em muitos governos considerados 'reformistas', ao menos a primeira parte do  enunciado acima é praticada, em maior ou menor grau, como forma de reduzir tensões sociais e até mesmo como estratégia de manutenção de poder por parte de grupos políticos, o que costuma ser criticado como uma forma de moeda de troca eleitoral. Tais ações, no entanto, costumam ser bem recebidas pelos beneficiários, total ou parcialmente excluídos socialmente, uma vez que frequentemente lhes trazem oportunidades de mudanças e melhoras significativas.

O que se pergunta é: seria realmente possível transformar radicalmente a macro-realidade econômica e social pela via partidária, mantidas as regras políticas vigentes? No Brasil, penso que isso é quimera. Para transformar drasticamente a realidade social, política e econômica, seria necessário que os que hoje detêm os bens e recursos fossem forçados ou convencidos de algum modo a socializá-los, o que não se daria sem enfrentamentos ou guerras. Seria necessário ainda que os detentores do poder político aceitassem abrir mão do mesmo em favor de uma nova forma de governo. Tampouco creio que a população, conscientemente, aderisse a uma revolução de resultados incertos para ter acesso a esses bens e poderes, aceitando uma troca radical do atual sistema - com o qual já vem se habituando há mais de um século - por outro para ela ainda desconhecido e incerto.



Qual seria, então, o objetivo de um partido socialista que não o fosse só no nome e que pretendesse de fato promover e implementar tais transformações, tendo em conta que pela via institucional seria não apenas improvável, mas praticamente impossível realizá-lo? Sabemos que sem o povo, não há revolução. Que objetivos, então, propõe-se a cumprir um partido que se diga socialista? Se se colocam como reais revolucionários, "o dever de todo revolucionário é fazer a revolução", já dizia Che Guevara, frase reverberada por ninguém menos que Marighella, mas, como bem se sabe, para tal haveria que mobilizar amplas camadas da população e saber como enfrentar as resistências prováveis. Caso não seja essa a função de um partido socialista, poder-se-ia acusá-lo do mesmo que muitos socialistas acusam os partidos ditos 'reformistas', que estariam no poder por amor ao próprio poder, ou para promover acomodação e não mudança concreta.

Resta saber se um partido socialista, investido no governo de um país pela via institucional, seria capaz de propor esse tipo de mudança brusca e se, ao fazê-lo, teria o necessário apoio da população que o elegeu para empreender as mudanças prometidas e pretendidas, sem, no entanto, jogar o país em uma guerra interna e sem ser derrubado de seu pedestal por forças internas e externas. Ou, no caso de não ser possível fazer isso sem uma guerra fratricida, com alto custo para a nação, saber se tal seria desejável e útil, já que a hipótese de realizar tais mudanças sem enfrentar oposição ferrenha, apenas pela via do convencimento, é fantasiosa. Quantos de nós estaríamos dispostos a matar e/ou morrer numa verdadeira ‘intifada’, cientes de que nossos esforços poderiam vir a ser anulados ‘a posteriori’ por uma intervenção externa contrária? Quantos de nós abraçaríamos uma causa radical, mesmo sem acreditar totalmente em sua viabilidade e eficácia?

Gradualismo, ou ruptura: qual o melhor caminho? Qual é o real papel de um partido socialista: promover reformas graduais ('reformismo'?) ou rupturas radicais ('revolução', 'revolta')? O que é mais viável? É possível mudanças verdadeiras sem rupturas bruscas?  Ou isso não importa? ...

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TRIBUTE TO CARLA SÁ FERNANDES - TAPETE VIRTUAL

Autoria das pinturas: Carla Sá Fernandes