domingo, 23 de junho de 2013

SOBRE DEMOCRACIA REAL

              Segundo Michel Foucault, o poder se exerce de fato nas relações interpessoais cotidianas. Poder é algo abstrato, que só ganha materialidade nas atitudes de cada um e nas relações entre cada ator social e político. Por assim dizer, poder não é um dom ou privilégio de alguém e de algum grupo apenas: é exercido por todos. Ao fazer minhas escolhas individuais, apoiar ou deixar de apoiar algo, comprar ou deixar de comprar algo, escolher como vou viver minha vida e a que devo dedicá-la na prática cotidiana, além de tantas outras situações e possibilidades comportamentais - e não apenas votando, mas também fazendo isso - em tudo estou de fato elegendo algo, interferindo politicamente e socialmente, ajudando a promover consensos e sufrágios e permitindo que determinadas expressões de poder se cristalizem e ganhem ou não força.

            O poder também pode ser exercido de maneira mais clara e intencional quando alguém se filia a um partido político, escolhe representantes e os fiscaliza, candidata-se a um cargo eletivo, acompanha discussões de interesse geral e específico e tenta participar nelas de todas as maneiras possíveis, após buscar informar-se bem a respeito dos temas discutidos, enviando depois mensagens propositivas a esses espaços e a quem elegeu, ou a qualquer outro tipo de representantes eletivos que fazem parte de sindicatos, conselhos de classe, associações, movimentos etc...

            Quem acha que democracia deve ser mais que uma enquete, não deveria usar a internet para apenas atribuir 'likes' ou 'unlikes' a determinadas mensagens, geralmente resumidas, que podem esconder a essência mais profunda de algumas questões políticas mais complexas. Enviar uma mensagem à presidência da república, partido ou a qualquer representante eleito é muito mais direto e efetivo, em termos de proposta, que dar um 'like' em alguma mensagem em uma rede social, ou um 'click' em algum abaixo-assinado ou petição on-line - embora apenas concordar ou discordar de algo, de forma breve e rápida, e 'dar um click' seja ou pareça ser bem mais fácil. Democracia verdadeira é difícil e envolve participação e interesse verdadeiros e tentar explicar as questões complexas, sem manipular dados e idéias, aos que não poderiam entendê-las de pronto, já que mais democracia é tentar ampliar a participação a todos, e não conduzir pessoas cegamente, seja com enquetes, impondo pautas ou manipulando dados.  

             O sistema representativo não foi inventado agora, ele é o fruto de um longo caminho e vem sendo aperfeiçoado há milênios. Existe, em síntese, pela impossibilidade de se estar presente em todos os lugares e momentos em que algum interesse individual ou coletivo esteja sendo discutido ou posto em jogo, e de dominar todos os assuntos envolvidos. Para isso nomeamos procuradores, porta-vozes, prepostos, tutores, representantes e assessores. Uma associação de moradores representa, ou tenta representar, os moradores de um bairro ou comunidade, os meios de comunicação tentam sempre nos representar - ainda que sem mandato - e os deputados, senadores, vereadores, prefeitos, governadores e presidente(a) são eleitos para isso, dentro de um sistema rígido de normas preexistentes e do complicado jogo político.

            Os políticos que hoje governam foram eleitos por alguém: já experimentou falar direto com seu representante, sem precisar gritar ou promover enormes atos? Eu já, e tenho a suspeita de que, em dezenas de mensagens que enviei, seja aos ministros, à presidência, a deputados, vereadores e outros representantes eleitos ou nomeados, ou simplesmente a algum órgão público, fui ouvido - ou pelo menos, alguns dos pleitos que apresentei acabaram sendo contemplados! Programa público de saúde bucal, treinamento contínuo obrigatório para servidores públicos, cadeiras para os idosos e a população em geral aguardarem atendimento no órgão público em que trabalho, enfim, demandas pontuais e gerais, pelas vias institucionais. Funcionou! Acho até que antes de chamar alguém de 'filho da puta' ou de 'vaca', tentar declarar o fim  do sistema representativo e querer reinventar a roda, deveríamos tentar isso: participar de maneira cidadã.

Flávio B.Prieto da Silva
RJ
Brasil

            


   

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