GOVERNO GOLPISTA NÃO!

domingo, 13 de novembro de 2016

A CULPA NOSSA DE CADA DIA

No Brasil, sempre foi tradição culpar quem é assaltado ou estuprado por ter sido descuidado ou ter provocado a má sorte. No caso do assalto ao mandato de Dilma e do estupro à democracia, não há diferença - ainda que o golpe contra ela tenha sido anunciado no dia seguinte à sua segunda vitória eleitoral. Também já culpavam Lula, quando foi atacado pela mesma direita que apeou Dilma do poder, de ter se afastado dos movimentos sociais, o que não é totalmente verdadeiro já que seu governo, por seu intermédio ou de seus ministros e articuladores sociais, buscou incessantemente esse diálogo e propostas para incluir mais e mais a parcela da população com carências sociais e econômicas em diversos programas de governo.

Também culparam Lula, Dilma e o PT por suas alianças - como se fosse possível para um partido sem maioria no Congresso prescindir de aliados, sem contar com alternativas à esquerda que lhe estendessem a mão. De fato, tais alternativas, além de minoritárias nas casas legislativas, também torceram o nariz 'ab initio' e se declararam oposição a Lula e depois a Dilma, chegando a se associar à direita para acabar com a CPMF e em outros momentos, com discursos quase uníssonos na discussão da taxa básica de juros, inflação, corrupção e volume de gastos com amortizações da dívida pública.  

Faltou chamar os eleitores e o povo em geral à luta? Quem, dentre eles: os que assistiam ao campeonato local, os que liam os jornais e revistas convencionais, os que buscam apreender a realidade via TV, sites da mídia tradicional e rádio, os que vivem em 'baladas' e outros tipos de lazer despolitizado ... quais deles? Quantos viriam? E com que armas lutariam? A direita tem seus exércitos de 'coxinhas' que, incitados pela grande mídia e apoiados pela PM, como já vimos, se tornam hegemônicos nas ruas. Isso nos leva a outra crítica comum: teria faltado a Lula, Dilma e ao PT educarem politicamente o povo. Em 13 anos, a despeito de toda oposição, se eliminou a fome endêmica, foram dadas casas e eletricidade, tentou-se dar mais Saúde e Educação, inclusive básica - mas como educar politicamente quem sequer lia e que, após quase três décadas de promulgação da 'Constituição Cidadã', ainda não compreende bem como funciona o processo legislativo? Como se educa politicamente e de maneira satisfatória tamanha multidão, em pouco mais de uma década?

E as forças armadas, apoiariam o governo legitimamente eleito? Que parte delas? Será que colocariam seu pescoço pra fora, dessa vez, para garantir de fato a legalidade? E o empresariado, incluindo pequenos empresários urbanos e rurais que lucraram muito com políticas de desoneração e regularização fiscal, como se colocou nisso tudo: a favor do governo e da continuidade de políticas como a de componentes nacionais, simplificação tributária e compra de alimentos da merenda escolar da agricultura familiar, pelo governo? Ou contra ele? Ou ficaram 'nem contra e nem a favor', como sói acontecer nos golpes? 

Os movimentos sociais que juraram que tomariam as ruas e promoveriam o caos para os articuladores e beneficiários do golpe em câmera lenta, onde estão? Criaram mesmo o caos ou estão apenas tentando garantir seu espaço de representatividade a cada novo ataque certeiro dos golpistas contra nossos direitos e contra o país? A radicalidade anunciada foi mesmo exercida, ou ficou mais no discurso e em tentativas ainda não convincentes para a grande massa e para os próprios golpistas? O que pesa mais para o brasileiro médio: meia hora de libelo no Jornal Nacional (repetido depois por outras emissoras, jornais, rádios e revistas) contra algum petista, ou uma marcha com dez mil pessoas não transmitida? O que pesa mais: a reabilitação da seleção nacional de futebol em uma ou duas partidas, ou a perda gradual e contínua de direitos? 

Enquanto as respostas a essas questões acima não forem bem definidas e conhecidas, não se pode responder por qualquer tentativa malograda de dar um bom governo e um bom país a um povo que se omite ou que se recusa a olhar para a realidade de frente, com coragem, sem se deixar iludir por novelas, tele-noticiários e capas de jornais. Quem aceita um golpe com tanta facilidade e não busca informar-se melhor também poderia ser acusado de negligência, omissão ou cumplicidade ...

Flávio B. Prieto da Silva



P.S. A crise econômica mundial - que diziam ser um mero pretexto de Dilma para promover medidas pontuais de ajuste, embora consideradas excessivamente neoliberais por alguns - bate às nossas portas e de vários outros países com muito mais força e efeitos imensamente mais desastrosos, agora. 




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